quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Os velhos

OS VELHOS

Era um casal de velhos, e o destino deles era a morte, porque esse é o destino de todos os velhos. 

Moravam do outro lado da rua, numa casa em frente a minha. Tudo ali era antigo: a frente de azulejos, a cozinha de ladrilhos, as torneiras de cobre gotejando metal. Mas, demoliram a casa e ficaram só os canos, igualzinho a um cemitério com ossadas ao sol, mas sem a brancura, sem o brilho que tem o metal novo. 

Eram velhos de verdade aqueles velhos. Ofereciam água em copos de cristal, as bordas douradas e o fundo fosco. Deviam ter uns cem anos. Eu não aceitava.

“Muito satisfeito”, dizia, conforme tinha ensinado minha mãe. 

E eles gostavam de mim, queriam me agradar. Diziam que eu era muito "educado", que meus pais deviam ter orgulho de terem um filho assim.

Sábios?! Não sabiam de nada aqueles velhos. Esqueciam as coisas, suspendiam minutos meu nome na voz.

Eu não gostava da velhice dos velhos, dos passos lentos, das dobras da pele, da espuma nos cantos da boca. Mas os velhos tinham tevê. E ninguém tinha tevê naquele tempo.

Então eu assistia com o velho ao Corinthians, enquanto a velha rezava, ou penteava os cabelos, ou pigarreava no quarto, no fim do corredor, e saía arrastando chinelas, fazendo ranger as dobradiças da porta, os tacos soltos do piso. Era uma velha impaciente aquela velha. 

Eu olhava os retratos da parede da sala. A cortina estava sempre aberta. A torneira tingia de amarelo o fundo da pia. Mas o velho orgulhava-se da sua dentadura. Sorria muito com ela. Tinham tido filhos e netos que às vezes vinham visitá-los, para quem eles me apresentavam repetidas vezes, sempre do mesmo modo: “Este é o Bruno, filho da vizinha”. 

E os filhos, netos, sobrinhos respondiam que era muito prazer, conforme tinham ensinado os velhos. 

Rodando pião no fundo da casa, pensava que, idosos, não iria visitar também meus pais. Meu pai que não me via nunca. Minha mãe que teimava em não me esquecer. Ou os irmãos maiores que me odiavam. 

Mais velho não, eu não iria pedir “a benção”; nem trazer chinelos, responder "senhor, senhora". Eu não iria me “comportar”. Todas essas coisas que eu fazia sem vontade, e que os velhos achavam bonito. Isso por que eu era “muito educado” só por fora, por dentro eu era um garoto mau. Eu era um garoto mau que fazia tudo que deve fazer um garoto bom. Na missa, eu bocejava escondido. Sempre mentia na confissão. E nunca faltava na escola, pois a escola era só o maior dever. 

Os velhos não, eles achavam que a escola era o meu lugar mais legal, mas lá eu me sentia como que amolecido. As professoras gordas ensinavam com grandes cópias na lousa; e se irritavam com minha letra torta. A sopa era muito ruim e sempre havia alguém mais forte, mais rico, mais tonto, mais bacana ou babaca; mais bonito do que eu. Eu gostava apenas de apontar o lápis com estilete, como gosto ainda hoje.

Os velhos eram bons comigo e me deixavam apontar lápis. Com eles, o velho desenhava grandes peixes numa agenda de 67, e eles, de tão perfeitos,  pareciam prateados, embora eu o visse desenhar com lápis 6B. 

Eu recusava a água, e a velha fazia para mim limonada, que agora eu tomava e deixava sempre um pouco no fundo do copo. O velho ria de orgulho dos dentes, enquanto a velha arrastava seus chinelos corredor afora, levando na mão seus bonitos pentes de acrílico.

Um dia ela penteou meu cabelo. O velho disse que meus dentes eram tortos, mas bonitos (ou fortes) e que era para eu cuidar deles. 

Então eu gostava de assistir ao Corinthians ainda quando perdia, pois o velho batia na mesa e o cão soltava um uivo alto. E a velha arrastando chinelas, saia do quarto: “O que é que está acontecendo, aí?

Em casa, eu escondia os lápis dos irmãos e os peixes ganhados debaixo do beliche, numa caixa de tênis Bamba. 

(Um dia, sem mais nem menos, o relógio da sala parou. O cuco parecia morto. Eu estava na calçada jogando as sete pedrinhas e ele me chamou. “Menino, vai buscar óleo de máquina no Seu Juca”. Foi como eu entrei na casa, conheci os velhos. Passava naquele instante o jogo do Corinthians.)

O cuco, eles chamava o Onofre. Eu gostava deste "o-Onofre". Eu gostava daquele relógio, daquele cuco. E agora eu gostava do velho e da velha e do Corinthians e da dentadura do velho e da limonada, apesar de deixar sempre um resto no fundo do copo. Gostava quando a velha me penteava, e até da desgraça dos azulejos floridos que davam cada susto na gente, quando despencavam da parede da cozinha. 

“Um dia você vai ter uma casa como esta”, eles me disseram. 

Mas eu não queria aquela casa, casa nenhuma. O que queria era viajar, conhecer outros lugares. Eu queria ir. Eu disse isso para os velhos. 

“E a sua mãe? Como ia ficar sua mãe? Eu ia deixar mesmo a família?” 

Eu ergui os ombros.

“E você vai levar o que nessa viagem?” Me perguntaram ainda. 

A velha tossia mais alto, mais alto, mais alto, a cada dia. O velho bateu na mesa, se ergueu quando o Corinthians perdeu. Mas a velha não veio do quarto dizendo: “O que está acontecendo, aí?”

“O que está acontecendo?” se perguntou o velho. 

Mas a velha tinha morrido. O pente na mão. Morreu de cabelo escovado. No caixão, prenderam num coque. A velha inundada de flores.

O velho nem chorava nem sorria. O velho usava marcapasso. Eu sei porque numa hora ele me apertou com força, o meu ouvido no peito dele dando tiques.
 
“Eu e o-Onofre temos uma coisa em comum”, ele disse.

Então eu olhei para o velho, os meus olhos assim inundando o mundo. “Velho, eu te amo.”, eu ia dizer.  Mas ele apertou com tanta força a minha mão e suspirou: “Diabo de menino!” 

Ah, o velho gostava de mim!

Ele não queria ver mais o Corinthians, não dava corda no relógio, nem a cortina, abria. Deixava os dentes no copo. Queria só saber de dormir. 

“Entra e senta”, ele dizia. 

“O menino tá perturbando?”, perguntava minha mãe.

O velho abria o portão ou eu saltava o muro. Ele me deixava só com o Corinthians para fazer o suco de limão que ele esquecia de adoçar. Eu tomava assim mesmo, e dava corda no o-Onofre. Se percebia, falava: “Você é muito educado”. E arrastava as sandálias da velha, rumo ao quarto. 

“Quando você viaja?” 
“Logo, velho, logo. “ - eu dizia.

E eu penteava o seu cabelo prateado. 

Numa segunda, minha mãe me levou para pôr o aparelho no dentista. Olhava meus dentes de metal e dizia que eu não sabia como tinha sorte. 

Então eu ganhei o lugar para excursão de tanta prenda que levei para escola. E eu fui. E o mar era verde, não era azul. E a areia da Praia Grande era uma continuação do asfalto. 

Quando eu voltei, soube que o velho tinha morrido. 

Pulei o muro da frente. Eu tinha que ver o vazio do velho com os próprios olhos. Arranquei três vezes a placa de vende-se posta no jardim. Apanhei três vezes do meu pai, que vivia sempre ausente. Mas antes eu já tinha tomado coragem e arrombado a porta do fundo. A família dele tinha levado tudo, tinha levado até o-Onofre. Pensei que vinha gente morar na casa um dia. Mas ela ficou assombrada, com azulejos que saltavam das paredes. Até que mandaram arrancar até os ladrilhos, derrubar as paredes. A ossadura dos canos sem brilho ao sol. 

No fundo da casa, entre escombros, eu encontrei a dentadura do velho. Pensei no velho para sempre triste. E guardei a dentadura no beliche. Depois numa gaveta. Agora, no porta-luvas do carro. Está sempre lá quando viajo. Às vezes sorrio para ela. Às vezes aponto lápis com canivete e tento desenhar peixes prateados. E quando estou muito triste, eu penteio meus cabelos, enquanto olho no céu infinito essa profusão de tão velhas e perdidas estrelas.

Versão 2021

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Benigno

Havia uma mulher que desenvolveu uma gravidez imaginária. Sentia o bebê se mover em seu ventre há quatro meses. No médico para o pré-natal: nada no ultrassom, nenhum batimento cardíaco. Encaminhada ao psiquiatra, descartou os tais remédios que, segundo o Google, prejudicariam o seu bebê. Num torpor onírico,  aguardava o parto sem ansiedade. Desentendera-se com o pai do rebento, que se negara à conclir o quartinho, o teto, coalhado de estrelas fosforescentes. A criança chutava como um jogador de futebol: o enxoval todo em blue, segura de ser um menino. Isolada no 708, gerava a cria à revelia da ciência, de Deus, da covid 16. O chá de bebê a distância, realizado pelas poucas amigas. Presentes aportavam via correio. Um móbile de bichinhos desinfectado com álcool em gel  emitia luzes coloridas e sonidos de carrossel. A circunferência da barriga atrapalhava na hora de passar as fraldinhas que com ternura repousavam ao lado dos sapatinhos de tricô (tecidos e retecidos por ela), em três gavetas. A montagem do armário concluída sozinha, após arrebentar a mão do eterno noivo com um martelo. Fora difícil remover o sangue dos ursinhos de pelúcia. Engraçado é que nunca tinha sonhado em ser mãe. Mas desde a pandemia, a dispensa do emprego, o basta no noivado, os vídeos de autoajuda em looping, a maternidade a tomara inteira, preenchia desvãos. Sua vida, de fato, nunca fora tão significativa. Sentia-se cada dia mais forte e confiante. Estava certa de que seria uma mãe excepcional. Que filho não teria todo orgulho do mundo de ter ela como mãe? Os dezessete anos sobrevividos no abrigo. A espera frustrada, o sufocado rancor, a angustiada resignação. Às vezes, duvidava um tanto de si, mas acariciando o ventre, como descrer do filho que nascia em si? Sim, ele poderia contar incondicionalmente com ela. Ela nunca nunca nunca o abandonaria. Seria a mãe mais perfeita que podia conceber. A mãe sonhada, aquela que nunca tivera para amar ou que um dia a amara. 

Tricotando casaquinhos de lã, esperava a bolsa romper.

Tiresias

Havia uma homem que afirmava ter nascido num corpo alienígena. O seu era um outro. Soterrada numa forma masculina estava a mulher que fatalmente era, invisível a olho nu. De alguma forma, contudo, antes de isso se revelar inequivocamente para si, evidenciava-se em trejeitos, no fino timbre da voz, em movimentos sinuosos das mãos. Sua delicadeza atiçava desejos aprisionados. Como um cisco, uma farpa, um corpo estranho e incômodo que está no outro e dói em nós,  atraía cáfilas de machucadores. Seu problema não era local, mas geográfico, deslocava consigo para onde fosse. A hostilidade do pai em casa, as surras aos urros no colégio, a saliência da cúria da igreja, a violação a caminho do rio, no campo de futebol. Sua vida pontuada por fugas:  do interior, dos vigilantes noturnos, dos fregueses violentos, do amante casado, do vício, do amor. E também daquele Deus que a negara três vezes. Agora retornava reconstituída: imagem e semelhança de si. Seu nome, ela quem lhe dera, cívil e não de batismo. Grace era sua graça. Vinha para enterrar a tia-avó que a criara antes que se recriasse a si mesma. Os hormônios que trazia na bolsa davam o arremate ao conjunto de intervenções a bisturi, botox, próteses de silicone,  e garantiam que o reflexo externo correspondesse ao interior. A cerimônia no cemitério pobre, os irmãos não ousavam se aproximar. O caixão branco, de virgem, a tia descia em glória com o lábio leporino que a impedira de casar. De olhos baixos, cravava as longas unhas no braço. Dissimulava reza, não daria o gosto de a verem chorar. Cumpridos os ritos, pagou o pároco vesgo que zombava dela quando menina. Estranho isso: na sua memória, apenas vestidinhos imaginários de chita, como quem se traveste de uma nova história.

A cidadezinha a quilômetros do aeroporto, saindo agora, às 23h, na capital. Dispensou o convite das primas envelhecidas, embarcou no ônibus e partiu, mas não foi muito longe. O rádio anunciava o breakdown: a ponte fechada isolava a cidade do coronavírus. Desembarcou do ônibus sob o olhar de uns caraminguás, e veio arrastando a mala da rodovia à estradinha de barro sem vacilar nos saltos altos. Uns vendedores de milho, um cão estendido ao ocaso. Entrou num boteco e lhe serviram uma água da torneira. Informou-se da direção e entrou na rua principal sob os olhares das casas, de uma vendinha, um salão de igreja caiada de verde, um posto de saúde aos pedaços, uma porta de garagem escrita Correios, a pequena agência do Banco do Brasil.

Ilhada nesse extremo nada,  hospedara-se desde então num quartinho de pensão e o dinheiro minguava. Na sexta prometeram no telefone, abririam a agência para saques. A tevê restrita a um canal. Concurso das deusas da Beleza, cobras entrelaçadas em cópula no mundo animal feito bastão de Eustáquio. De posse da bolsinha cruzou o passeio. A farmácia sem seringas e agulha, camisinhas coloridas morango e hortelã. Como podia repor seus hormônios trazidos na frasqueira? O posto fechado desde a expulsão do médico cubano, a tevê com notícias da capital. A rádio alternava calipsos e sertanejos, sem perspectivas de abertura.

 Os pelos retornando na cara. A voz recuperando o grave. Nessa manhã, do café nem o café: o líquido gostava à cevada e cuspe. Os olhares inóspitos de faroeste. Os frangos se embriagam, atiçam uns aos outros, há sempre um armado de faca. 

Ela roubou a faca de pao e leva a consigo. Cobriu o azul da barba  com o xale, à espera da abertura da estrada, quitar a pensão e partir, antes da eclosão de Hyde, seu inimigo.










 Acordou parada no meio do nada. 

gênero de pessoa que era. Era daquelas que transcendem, nao permanecem. Havia uma ponte, era daquelas que nao querem, necessitam atravessar. O que era estar presa no meio do nada, para alguém confinada num corpo estranho, inimigo. Presa numa estrada no meio do nada, a pensão caiada de azul. A fobia de voo, a longa jornada de volta. O enterro da tia avó que a criara. 30 horas Para-Sao Paulo. Era diretora numa escola. Nesse lugar matavam gente. A ponte interditada. Ela permanecia ilhada nesse extremo nada. Hospedara se numa pensão e o dinheiro minguava. Na sexta prometeram no telefone, abririam a agência para saques. A tevê restrita a um canal. Concurso as deusas da Beleza, cobras entrelaçadas em cópula no mundo animal feito bastão de Eustaquio. A farmácia sem seringas e agura. nao podia repor seus hormonios. O posto fechado desde a expulsao do medico cubanos. Os pelos retornando na cara. A voz recuperando o grave. Os olhares inóspitos de faroeste. Cobria o rosto com o xale, a espera da abertura da estrada, quitar a pensão e partir, antes da eclosão de Hyde, seu inimigo.

Primavera

Havia uma mulher que se alimentava de flores. Como morava em cidade, era complicado se alimentar. Tinha um paladar exigente, dificil de se satisfazer. Esgotado o menu urbano, tocava para o interior. Todo esse trânsito a enfastiava. Recorreu a floricultura próxima de casa. Cada planta exigia uma composição distinta de solo, às vezes em etapas distintas da vida. Identificou se profundamente com as glicínias. As xxx lhe pareceram arrogantes. Bromelias soberbas em seus vazinhos. Tinha simpatia por rosas. Eram simples, belas, pouco exigente nas relações. 

peixe homem apaix

Havia um homem que se apaixonou pelo melhor amigo. Ele não sabia, mas o amava. Jogavam futebol no clube aos sábados de manhã. Se entusiasmados num lance, se abraçavam e se beijavam sem pudor. Antes a esposa de um vinha assisti-lo. A namorada do outro eram muitas. O suor no campo saia no chuveiro. A nudez de um era conhecida do outro. Invejavam o condicionamento fisico um do outro. E muitas vezes treinavam juntos na academia. Cerveja no bar do Manuel com os camaradas. Sentia-se pressionado na firma. Quem não tinha problemas com o supervisor? O carro enguiçado, quem ia socorrê-lo? Era sempre convidado para costela assada por 4 horas no fogo baixo, uma especialidade. O outro trazia a nova namorada, cujo nome a esposa não fazia mais questão de memorizar. Divergiam bastante no futebol, as discussoes acaloradas, pareciam urros do truco, desapegados de argumentos, gostavam da voz grave um do outro. O outro quebrou o dente numa briga, chegava a uivar com a raiz partida do canino, nem se lembrou de recorrer a esposa 

Labia / Esperma

Havia um homem que fornecia esperma para clínicas de fertilização. Não fazia isso por altruismo, mas por necessidade. O fluido vendido pela qualidade do doador.  Ao preecher o questionário, vinha a hora de engambelar a moça. Seguindo a lógica do perfume, caprichava na exibição do frasco. O pai de origem alemã, a mãe, relações internacionais. Arranhava, oui, o francês. Natação desde criança. Turbinava a ficha para valorizar o produto. Se bem cotado pela técnica, recebia mais. Ser jovem, bonito, saudável, não mais o suficiente. Os dotes exigidos na triagem, cada vez maiores. A mulher, como somelier de sêmen, só faltava provar. O dinheiro era bom, valia a pena. Menos de dez minutos, recebia em euros. O visto vencendo, onde arranjar em espécie? Já tinha dado o sangue naquele país, aliás vendido, e nada. Para porra do esperma, pagavam mais. Quanto custa um green card em ml? Me fale um pouco mais sobre você, perguntava a técnica, preechendo os dados. Concluindo Direto, em Berlim? O cartaz na parede: "Povoando o mundo, realizando sonhos." Ele em verdade, não mentia. Era um cara duro, cada qual oferece o que tem. Seu talento para farsa vinha da convicção. Se a mãe era cafetina, por que não um pai alemão? Suas relações, via de regra, não deixavam de ser internas e internacionais. Na pensão onde se hospedava, aprendera com os haitianos os termos mais chulos em francês. Expulso da faculdade falsificando TCCs. Nas enchentes da quebrada, ou se aprende a nadar desde cedo ou se morre afogado. As costas largas, o sorriso sexy, quem podia duvidar? Ela ia checar as redes sociais, esmiuçar o seu histórico em tempos de perfis fakes,  pós-verdade, teoria da conspiração? Ele
Se tiver prazer no que faz, nunca terá que trabalhar na vida. 

Morava numa pensão de moços, desde que descobriram q vendia ttcs na faculdade. A grana curta q recebia com atendente numa academia não dava conta do pf diário. Era jovem, alto, belo e saudável, mas não o suficiente para valorizar seu produto. Por isso, mais q mentir no questionário, reinventou se. Escondia a calvicie de gerações, o câncer dos avós, a hemofilia. Se quisessem, eles que examinassem seu dna. Sempre lera bastante, no buraco de onde saira, lhe dera um vocabulário q permitia flanar na sociedade. A imaginacao advinda desde o abandono do pai, fizera dele um bom farsante. Sabia assimilar com velocidade, era mestre na arte de simular. Turbinou o currículo acadêmico nas redes. Seu xxx era invejável, quase um CO de multinacional. Na coleta dispensava o porno usual. A geneticista desconfiada da lábia. 

Uarii completo

Havia uma mulher que foi achada vagando na floresta. Foi encontrada por nativos de uma comunidade indígena. Via-se nos olhos que não era dali. Indagaram nos arredores se alguém perdera uma loura, magra, sapatos altos e organdi. Vasculharam sua bolsa em busca de identificação. Deram com uma brochura barata de Sidney Sheldon, repleta de anotações miúdas ao pé da página. Nada que qualquer um deles pudesse compreender. Era época de cheia, nem os garimpeiros se arriscavam por ali, quanto mais turista. Infestada de mosquitos, sem os paetês arrancados por curumins curiosos,  só fazia se abanar, um olhar aturdido para os lados do rio. 

A mais velha da aldeia cansou daquilo, arrastou-a consigo como quem se apossa de um traste inútil. Demorou acertar-se com a rede, por fim, enganchada, dormiu a eternidade de um dia. 

Acordou faminta. Não estranhou a comida: sorria para todos agradecida. Warii a achou feia. Os homens que tinham saído de canoa na chegada, voltaram em duas semanas sem resposta, mas pelo menos tinham conseguido a troca pelos bens. As chuvas voltaram mais forte, desalojando ribeirinhos. Informados da intrusa, nem sinal de fumaça dos agentes da Funai. 

Nessa época, já tinha se apegado muito às crianças. Vivia com duas ou três no colo, outras enganchadas, nas ancas secas. Os cabelos longos, agora ondulados. Parecia uma Iara desbotada.

Cogitaram levá-la à vila próxima. No rádio contactariam a capital. Concordava? Ela aquiescia no gesto surdo das mulheres da aldeia. Amanhã, sem falta, acertavam. O amanhã sempre adiado, virou um futuro provável do qual ela não mais trataria.

As garças, no ar graciosas, quedavam desengonçadas no chão. Ela, quando apertava a Birkin no peito, o ar era todo de garça. As duas índias que tinham batido nela, agora riam de sua cara rosada de cauim. Já nessa altura atendia por Gootagi. E  começava a ganhar a confiança de Warii. 

Como se lembrando a todos que viera de fora, ela tirava a brochura da bolsa e lia em silêncio. Mas as crianças queriam também a história, então ela lia para elas. As mulheres sentavam em volta. Warii, de longe, vigiava. Nada daquilo fazia sentido, a estranheza que era a sua voz. Ela então ficava quase bonita. Passado tempo, do nada se cansava e metia o livro na bolsa.

Nos meses que se seguiram, nem sombra de avião vindo do norte.  Nenhum helicóptero de busca. Sem internet, celulares, drones nessa época, as chamadas só de DDD. Um bugre ofereceu-se para levá-la de canoa à vila. Em conselho com as mulheres, decidiu ficar. Antes de partir, entregou-lhe a bolsa com a capa arrancada do livro. Dentro, ela rabiscou uma mensagem. Warii atento, cisudo,  não queria o governo ali. O bugre pegou a bolsa e a mensagem. Depois daquilo, nem notícia. 

Se naqueles meses de cheia já se fazia entender com as mãos, breve dominava a língua de passarinho das crianças; e se fez mestra no ralar da mandioca. O cabelo aparado pelas companheiras. Gootagi, tinha perdido o olhar desmaiado, a palidez do corpo de tanto rolar no margem do rio das Piacambas

Ainda ia lendo aquelas páginas de amor impossível. E a gente toda já recitava a trama confusa de cor. Tinham todos muito gosto de lhe ensinar as coisas que ela custava a aprender. De uma hora para outra ela acertava de um jeito diferente muito dela que passava então a ser o modo de se fazer dali para frente. Esse prazer em ensinar o que não sabia agradava muito Warii

O Sidney Sheldon de treslido já se tinha desfolhado inteiro, ficado amarelo. As páginas soltas que a conectavam com remoto antes, lidas em desordem, embaralhavam  tempos e espaços. Um personagem morto renascia no capítulo seguinte jurando vingança pela traição ainda não sofrida, o desfecho trazia uma revelação cujo mistério era sabido de todos.

Os anos fizeram em frangalhos o vestido da chegada. Aqueles sapatos que emprestava para as moças exibirem na vila sumiram sem rastro. Por esse tempo já era possível ir e vir da reserva. Ninguém reportava mais seu caso, sua presença nem fazia espanto. Quando as autoridades estiveram ali, mal repararam nela.

A índia velhíssima caiu doente, Gootagi cuidou dela. Desde que chegara ninguém mais tinha partido, como se a morte a evitasse. A velha que não a temia, tinha visto os avós erguerem a grande oca central, a chegada dos brancos, o insubordinado subir e recuar das águas. Queria um fim antes que não houvesse mais destino para seu espírito. 

Gootagi cuidou dela mais que pode, mas ela a expulsava de perto. Acharam-na, depois, no fundo da rede: o corpo diminuto, esvaziado, parecia caber na palma da mão. Os avós de seus avós a tinham levado dali.

Então, num fim de tarde Gootagi se acertou com Warii e foram viver juntos. Foi na semana que leu pela última vez o que restara daquelas páginas distantes, a impossível história. Fez questão de dar uma para cada um de presente. Warii pescou um jaú de não caber nos olhos de tão grande e a vida seguiu adiante. 

Logo estava grávida. A barriga larga de seu filho com Warii. Para ele, ela nunca tinha sido Gootagi, ou o outro nome segredado, mas continuou sendo. Era de repente bonita, não como as outras, mas calma, redonda, descansada. A barriga dava saltos. 

Faltando pouco mais de um mês, a velha a visitou em sonho e lhe contou que a morte a procurava e a criança. A médica da aldeia confirmou o prognóstico. Não, ali faltavam recursos, não viveriam.

Mas ela estava decidida. Ia fazer do seu modo. Já se lembrara de tudo, do nome perdido, de vagar na escuridão e dar com a estrela, imensa, e o urutau manda-lua pousado, longe, à direita do rio, cujo canto expulsou o setestrelo do medo, do desespero e da morte. 

Warii devolveu-lhe os sapatos. Ele os tinha enterrado para que não tivesse como voltar. Queria agora que se fosse? Pela primeira vez tinha medo. 
Mas a outra ficara lá trás, esquecida, não era quem era. E quando a velha veio, no derradeiro sono, vê-la, ela aceitava partir?

E tudo sucedeu conforme tinha que ser, sorte e azar misturados, sem sobrepeso de partes: a vida só, plausível. E se passaram anos.


Como é possivel aquela ausência forasteira? Ela tinha ido e deixado seus gestos e o jeito do fazer de tudo, a história lida passada de boca em boca. Warii se lembrava dela como algo que não se capta. Ela também dera sentido ao que antes não fazia. 

O avião monomotor desceu em rasante na aldeia. Finalmente tinham achado jeito de posar. Dentre os agentes da FUNAI, Jagigi, agora Joaquim, intérprete. Desceram do avião o piloto, dois gigantes ruivo-alaranjados e a mulher pequena, muito magra, os cabelos brancos tinham sido louros, a bolsa na mão de Gootagi. 

Ela tirou de dentro a mensagem. Então o bugre cumprira a missão. Disseram o nome a Warii, pois desconheciam i verdadeiro. Eles a buscavam. Mas ela agora, no Guajupiá. Não entenderam. Ele os levou para lá onde ardera, há dez anos, a grande fogueira. Jagigi precipitou-se: onde dorme em repouso, de volta sob a terra. Compreendiam?

A velha em desespero não queria acreditar. Queriam o corpo. A mulher e os homens se abraçam. Warii não aceitou que a fosse levada a parte alguma. Discutiram entre si, selvagens. Pegaram as páginas, recuperadas, devolviam agora, levasse-as, não precisavam mais, tinham ficado todos com a voz, o jeito, o gesto cativo de Gootagi.


Deram partida no voo. Warii viu o avião subir espantando as garças. Os meninos saíram de dentro da mata, aborrecidos de terem pedido o espetáculo do avião. O mais novo, correu para Warii. Tinha seu nariz, sua boca, os ombros que seriam os do pai. Sua cor não ficava clara, os olhos azuis de Gooagi.