segunda-feira, 19 de julho de 2021

HAMELIN

Havia uma mulher cujo apartamento foi invadido por um rato. Da cadeira de rodas, assistiu com horror à passagem veloz rumo à cozinha. A instalação recente de uma quadril de titânio impedia movimentos heróicos. De posse de uma vassoura tentou espantar a fera sem sorte. Era leitora de cartas. Nestes tempos de crise, o tarô garantia a dispensa abastecida. 

 O plano de saúde em débito automático,  da pensão de professora que restava? Antes da pandemia, havia clientes: era das que trazia o amor em trinta dias. Hermeticamente confinada no apê mirrado, não entrevia futuro. Lançava à sorte dos dias, faltava-lhe um gato para puxar o rabo. O seu tinha morrido no mês passado. Pensou em empalhá-lo. Entre tantas fotografias amarelas, placas de mérito, velhas bonecas de louça, espelhos venezianos, completaria a tumba que fizera para si. 

A desratização não estava inclusa no condomínio? Ela assumiria o risco por inevitável horror de roedores,  mas quem ousaria entrar naquelas trevas nesses tempos de contágio, quando a solidariedade era só da porta para fora? 

O moço do 171, a quem confiara o enterro de Cigano, sumira com o tapete persa destinado à venda. Devia ter visto antes nas cartas as intensões do larápio. Mas as mãos trêmulas, a vista baça de analgésicos, embaralhava os arcanos, corrompia o sentido, a interpretação: falhava a consulente, não a mensagem. O rato na cozinha emitia guinchos. O crash de um pote espatifando-se, atingiu-a como uma uma espada.

Empunhando a vassoura decida,  pedalou para lá na cadeira de rodas. Antes destravou a porta e a deixou entreaberta. Dali para fora, o problema era de outro. 

O cinza escuro do pelo, era quase preto. Errara na predição: o rato era uma rata e, pelo volume do corpo, prenha, faminta. Pensou em ligar para a afilhada que ajudara a criar. Ela viria acudi-la em condição de filha, à revelia do marido que se oporia com justiça. Onde já se via, atravessar a cidade aos 8 meses e tanto de gravidez!?

Arremessou o saleiro que quicou quase vazio na parede, depois o paliteiro, bem perto da rata que roía bolachas sortidas entre cacos no ladrilho. Sem se intimidarem, encararam-se. A rata intuiu a vantagem ao vê-la inerte sobre a almofada. Em vez de recuar, avançou. A velha tentou afastá-la com a vassoura, mas a rata marchou confiante escalando  o cabo, que soltou assustada, girando as rodas em marcha-ré de volta para sala. Na passagem, esbarrou na banqueta e o abajur de conchinhas veio ao chão. Confiante, a rata exibia dentes amarelos. O coração de porcelana fora presente do amor da sua vida. Não relutou em desferi-lo contra a inimiga. O porta-jóias se espatifou no taco vomitando brincos e pulserinhas oxidadas. A rata, furiosa, avançou cravando os dentes na chinelinha rosa que arrancou sem dó do pé da velha. Assustada, tentou apoiar-se na mesa redonda que bambeou. Perdeu o equilíbrio, a cadeira virou e ela bateu o quadril operado no chão.  

A rata, surpresa, recuou uns passos examinando-a se contorcendo de dor. Queria aquela ruína de casa para si? Onde os vizinhos que sempre reclamavam do barulho?


[Todas as manhãs retirava uma carta, para prever o curso do dia. Semana passada foi o enforcado. O rapaz do prédio em frente içara voo pela janela. Hoje esquecera. Como entrara nesse dia sem destino?]

A rata rosnou rouca rompendo o transe. Por que esses travas línguas infantis? Que  tinham os ratos a ver com criança? Impossivel perdoar a Disney. 

A rata suja erguida no largo ventre. Quase podia sentir na cara o bafo da besta, os dentes expostos, as garras duras, ameaçadoras. A cauda chicoteava uma ansiedade de gestante. O mundo temia a esquitossomose, a infestação de seus piolhos, a peste negra.

Com o quadril latejando, a velha via estrelas, constelações. O ar não fugia, antes, escapava das fossas do pulmão. A besta ganhara confiança para o bote. Sem muito atinar, estendeu o braço e apanhou a primeira coisa à mão e atirou. O bloco de cartas atingiu o focinho da fera e se espalhou. A rata espantada com aquela profusão de reis, valetes e espadas saiu como um torpedo pela porta entreaberta, as cartas esparramadas onde antes havia o persa. O interfone começou a tocar. Eis os vizinhos, ela pensou, e riu da ironia. 

Logo viriam socorrê-la. Sua história ganharia corredores, outros blocos, desceria e subiria os elevadores. O administrador trataria da desratização imediata e a isentaria do condomínio, temeroso de processos. Sem esforço premonitório uma cadeia de eventos desfilou diante de seus olhos, evidentes como o parto da rata, a continuidade de sua descendência que sobreviveria a ela, à postiça neta autista, aos Adoradores de Tant, a novas epidemias.

Antes que a viessem resgatar, ela estendeu a mão e apanhou uma das cartas. Não era a roda da fortuna, mas o hierofante.

Larapio sem futuro naipe coracao consulente quarentena hibernara peste/praga penetrar a cozinhs

171

Havia um homem que dava pequenos golpes. Tinha preferência por idosos. O fato de serem velhos não lhe imiscuia qualquer culpa. O minimo que esperava do tempo era o fim da inocência. Se se deixavam enganar, não o faziam por ingênuos, antes por se acharem imunes ao golpes, como se os anos lhe consagrassem imunidade, isenção, como se a eles algo se devesse. Essa arrogância o inquietava. Além do que, todos se compadeciam dos velhos. 

ABANDONO

Havia uma mulher que abandou os filhos. Moravam os três no apartamento. Desde a morte do marido não se reconhecia. Amava os filhos, so nao suportava mais aquela vida. Fez as malas, apanhou os documentos e partiu. A de dezesseis leu o bilhete para o menor. A mae deixara o cartão com a pensão do pai que deveriam sacar e quitar compromissos. Havia outras instruções, precisas para cada situação. Todas anotadas com objetividade como a última: não me preocurem. Viveram as 5 fases do luto. No terceiro, mês desistiram de achar que voltaria. O menino, que tinha medo de fantasmas, procurava refúgio  na cama da irmã, a quem se apegara ainda mais, temendo que partisse. A menina vestia a blusa esquecida pela mãe no cesto de roupas sujas, acendia um cigarro e soltava fumaça na janelinha da lavanderia. Chorava no chuveiro às vezes. As contas no débito automático, do aluguel. A escola pública não exigia mensalidades. O orçamento era apertado. Ela conciliava estudos com serviço não registrado numa lanchonete. Era assediada diariamente, mas seguia firme. Apesar disso, aceitava cartões de engravatados, vai saber do futuro.

Contrariando clichês, o menino ia bem na escola. A morte do pai alicercara o homem que seria. O abandono da mãe nada mais fizera que confirmar que ele e a irmã eram sobreviventes. À beira da morte, aos 37, se lembraria daquele dia e decidiria viver. O sentido-aranha dela, a faria ligar nas impensáveis três e trinta da manhã. Por hora, era um menino num prédio solitário. A amizade com o jornaleiros garantia acesso a tirinhas. U

FADA

Desde esse não suportava a cara do marido. Antes, a incompatibilidade de horários tornava tolerável o casamento que se arrastava há cinco anos. A quarentena impunha agora um convívio diário e esgarçada/evidenciara de vez o túmulo da relação. Desde que esbarrara no anão, tinha as noite inquietas. Se masturbava loucamente com a duchinha no banho. O filho adolescente batia na porta afundando/afogando desejos. Aquela idade toda confinado no quarto.

Ao se livrar do ex, viu renascê-lo no filho. A mesma inutilidade, o ar balofo, a preguiça. Amava o filho, mas não o suportava mais. Os gritos jogando Call dufy atrás da porta. Havia gente ganhando fortunas nas olimpíadas do Japão, não o garoto, que nenhuma vocação para prodígio. Parasitando os dias, consumindo ritalina para um intratável tda. O dinheiro apertado, faltasse tudo menos a internet. Já tentara se matar numa ocasião, feito o pai, inútil. Só ela sabia o que lge custava aquele destino de trevas. Desencantada com a vida sorvia mais copinhos de leite condensado e vomitava no banheiro. A bariátrica. O futuro distante, o rancor desse filho inútil dissolvido agora com doses de gim. Às vezes passava três dias sem tomar banho. A pilha de roupas acumuladas sem força para passar. A ilusão do peso mantido na balança quebrada embaixo da cama. O vestido 45 eternamente a espera no cabide rosa.

Duplo

Havia um homem que despertou num quarto de hotel barato. A latejante dor na tempora, nenhuma marca visível de pancada, o estômago embrulhado. De como chegara ali, uma incógnita. As câmeras de vigilância nada flagraram, já que não passavam de mero aparato cênico para coibir danos ao patrimonio, artifício de enganar a fiscalização. No livro de entrada, uma assinatura indistinta da sua. Perdida ou furtada, nada da carteira ou do celular. Uma amiga, contudo, recebera uma mensagem enigmática em voz metalizada: universos paralelos, biparticoes celulares, revelações cósmicas. Na delegacia para o BO, não o levaram a sério. O policial mascava um palito que pendia irônico no canto da boca. No bloquinho de notas: burguês branco de balada, provavelmente viado, viciado ou ambos, típica princesa do boa noite Cinderela. Última memória: canhões de luz, deslocar entre o bar e a pista sob batidas lisérgicas e amigos que não o tinham visto partir. Sua ex emigrara com a nova namorada para Londres, andava só e aberto a aventuras. Não espantaria que tivesse tomado ou lhe dessem algo. Mas como explicar a ausência de 29 das 29 tatuagens?

O círculo de Órion, seu nascimento em romano, o olho de Hórus, a pena de kentzal. As formas piramidais e chave maçônica. Os pontos em cada chacra. Essas marcas de eleição que pontuavam o ser que era num instante x, já não existiam. Era de novo um homem em branco, sem a bússola na homoplata, sem a constelação na clavicula, sem as coordenadas numéricas do nascimento no tríceps. Ausente no espelho, a memória da serpente entrelaçada no braço, já não se reconhecia, como se tivera trocado de corpo, ou alma, e fosse outro, um duplo, um golen de si mesmo, ele que em pequeno, sonhara um irmão para compartilhar consigo o desamor do pai, as ausências da mãe.


Da noite para o dia perdera o corpo que além de evidenciar sua natureza servia-lhe de portifólio: ele era tatuador.

No estúdio, os amigos atônitos diante do surreal fenômeno. Contudo, para além do apagamento visível, outro mais profundo se fizera: reconhecia-os, era capaz de nomeá-los um a um, contudo, sentia-os inquietos, como se o desconhecessem, ou pior, temerosos que o mesmo mal sucedesse a eles.  distante, nada íntimo, e de algum modo, desconfiado. Reconhever aliem inadequacso distanciamento. 

Deixado na porta, 
Ligações na madrugada no telefone retrô. O pedido de socorro sussurrado do outro lado da linha: não era aquela a sua voz? Bateu o fone no gancho, incapaz de responder. Ressuscitou um caderninho de chamadas e pediu ajuda ao pai que não via há quatro anos, desde a morte da mãe. O irmão autista, um ano mais velho, não o reconheceu. Foi acomodado no quartinho de trastes do fundo, à revelia de uma madastra insone, pivô da separação dos pais, sua ex secretária nos Correios. Deitado naquele forno com o ventilador de teto levantando pó, sonhou que penetrava uma imensa caverna.

Estranho torpor no curso dos dias, era impressão sua ou o vigiavam da esquina? As maos de repente trêmulas, pequenas alucinações o perseguiam no curso do dia, um sabor gravo na boca, a boca ora seca ora uma saliva impossível de cuspir. , pesadelos simulados do Twilight Zone, o gosto e o cheiro abandonara-o e uma perturbação sensorial, elwtrificava-o, como em campo aberto, prenúncios de uma tempestade. Um gato negro, uma escada, dejavus e clichês misticos o acossavam. No cinema, um filme noir de Welles, uma mao no ombro. No banheiro fechado, vozes conspiratorias sobre os ombros. Sentia habitar um filme de Lynch. Recebia ligacoes, desligavam. 

Dos sonhos

Havia uma mulher que acreditava que sua vida não era real. A verdadeira é a que vivia nos sonhos. No exíguo jardim da casa de muros baixos, ela cultivava rosas amarelas. No varal dos fundos, se enlaçavam ao som da rádio AM, seu taierzinho azul marinho, as saias rodadas de bailão. De segunda à sábado, as folgas eram quinzenadas, vendia perfume num shopping no centro. Estava sempre exausta. O namorado, entregador da rapi, a pegava de moto às dez. E dormiam enganchados numa cama de viúva, simbióticos, como um búfalo e um pássaro. 

Despertava no quarto ao lado do marido, célebre matemático, cuja apneia determinara a separação de corpos, não das almas, unanimemente discordantes. Chefiava um departamento no campus, era dos que traziam equações para casa.  Nessa outra vida, ela tinha dois filhos, altos, magros, lógicos, como o pai, para seu horror que só se encontrava agora sendo mãe. 

Não eram duas, mas uma: o nome igual, a idade, o olho estrábico, mãe e pai comuns, ambos amados e mortos.  Só as vidas bifurcadas não sabia a partir de quando nem por quê. Canhota, lá, destra, aqui: incompleta, por sua vez, em dupla existência.

O relógio biológico emitindo ondas de alta frequência: o namorado não captava. A casa cada dia mais vazia, a emitir ecos: o escritório ao fundo restrito aos homens. A vida almiscarada resumia-se a pagar boletos e esperar o baile nos finais de semana, se calhasse, o sol em Praia Grande. O jantar burocrático a dois num restaurante fino sem paixão. Os garotos programaram 232 canais na tv a cabo, e comunicaram o intercâmbio no Canadá para dali a uma semana. A memória de uma, na outra. Na dupla jornada da existência, qual a vida real? Qual o sonho?

Na casa impecável, toda ao gosto do marido, de repente se sentia fora de lugar. Muitas vezes o colorido do dia vinha de um pássaro que clicava no celular. O marido online na madrugada, paranóia  supor uma vida dupla? A moto apreendida de novo, o dinheiro que dera convertido em cerveja. De um sujeito preso cinco vezes em maracutaias, que esperar? De repente feliz entregando frango frito, não era de se desconufiar?

Resolveu buscar apoio profissional
O psiquiatra a peso de ouro e o recém formado que atendia no SUS unânimes na prescrição de sedativos. Entorpecida, vagava o dia entre dois mundos. O calculista motoboy, a senha de números primos a nostalgia dos univitelinos. 

Descrente de soluções plausíveis, o zodíaco descartado, consultou uma cartomante. O carro, a roda da fortuna, o valete, a estrela. Despachou os filhos para Montreal.  Pediu um sinal a Deus que lhe mandou um tucano. Entrou pela janela, com seu bico vibrante e plhar sonso. Rompeu a união com anúncio dume que tinha comprou uma Canon 60d e saiu fotografar pássaros no Jardim Botânico. Um ornitologo profissional curtiu seu Instagram e começaram a trocar mensagens. 



Na mostra dos classicos de DePalma de cinema reviu Vestida para matar. mante. Na Pinacoteca do Estado, nada que a atraísse. 
.



Deu um basta no eterno noivado, as contas na perfumaria, raspou poupança e embarcou 






à espera de condições ideais, as inúteis ovulações na hipótese sempre adiada de um bebê. Estava 









A memória de uma, na outra, embaralhavam-se, sem se concluir qual a existência real? A consulta no analista revirando ainda mais as cartas: que outra coisa fazer se não tornar ambas as vidas mais reais.

 sem sentido na casa s filhos que não careciam mais dela. A flagrante fragrânciasO almiscarado 


















Despertava nos longos braços de Paloma. Foram amigas, antes de se entenderem almas gêmeas. Os filhos frutos de uma dupla gravidez, nasceram com os olhos verdes do doador comum. Infernizavam a vida das mães





 almas bipartidas compactuado um mesmo ser

Atavicas

num amor disléxico que beirava à maternidade, 

Cinzas

Havia uma mulher que não enxergava cores.  Sua visão de mundo, entretanto, não se limitava a preto e branco, mas em complexas variações de gris. 

Rosa, amarelo, lilás eram indistintos, invariáveis o vermelho, o azul, o verde e o marrom, se restritos a um só tom. Acreditava em formas, volumes, texturas. As frutas, se não provadas, indefinidas, por isso, para ela o sabor era um dos atributos da verdade. Um admirador lhe dera flores, ela mostrou-se imune ao presente, à sua pele bronzeada, aos olhos que ela não sabia azuis. Certo e errado, bem e mal eram para ela conceitos inconcebíveis. Fúria e entusiasmo, similares no modo, por isso, de complexa apreensão. Placas, semáforos, sinais luminosos, uniformes, fachadas de led e neon, bancas de jornais e cinema 3d tudo lhe fundia horror, evidentemente inapta para o meio urbano. 

O arco-iris, um facho de luz entre terra e céu. A camuflagem, o dom da invisibilidade animal. O camaleão: um lagarto indecifrável. A zebra, um equino em retalhos.

Imune a maniqueísmos, achou-se completa no Direito. Sua percepção desencantada, estóica da existência a levou à juíza. A certeza opaca no julgar toda fundada na intencionalidade, nunca na intensidade dos atos. Suas sentenças eram precisas, apartadas do colorido das paixões. Não que fosse insensível ao amor e à arte. 

A poesia das fotografias de Cartier-Bresson, de Vivian Maier, de Sebastião Salgado,  dos filmes de Carl Dreyer e de Orson Welles. O teatro de sombras feito com as mãos. O amor de sua vida era uma acrobática gata siamesa a quem batizou Minerva.

Pandora

Havia uma mulher que enviava presentes a desconhecidos. Eles desembarcavam diante da porta dos apartamentos com postits escritos à mão. Ao desatarem o embrulho, os contemplados eram surpreendidos por algo banal, mas estranhamente necessário. O pequeno filhote de angorá de pelos cinzentos pôs vida nos olhos da criança triste; e a mãe, mais do que o pai (que tinha seus peixes num aquário), montou um instagram exclusivo para suas estripulias. O cupom intransferível de ilimitadas guloseimas, na Confeitaria Delícia, adoçou a vida anêmica de Isolda, para inveja da família. O delicado diário rosa com cadeado, confessor de sonhos, planos e segredos da filha adolescente, virou obsessão para mãe super-protetora. 

Sem data festiva e aparente intensão, cortava à tesoura o rubro papel, embalava a caixa branca, e arrematava o pacote com laço de seda esmeralda.  Os embrulhos distribuídos entre os habitantes do edifício, exilados neste período de parademia. O binóculo, a calça jeans dos sonhos, o portarretrato de coração, o wisky 50 anos, a lingerie provocante, o vibrador em forma de coelhinho. Os presentes mais singelos deflagravam catalismos inimagináveis. 

Para alegria da mulher, o gato assassinou os peixes ensandecendo o pai que adiou o ódio: o filho doente de amor e asma pelo gato. A glicemia nas alturas, não resistia ao bolo de doce de leite, nozes, castanhas e chantilin. Arrebentado o cadeado, a revelação do abuso da caçula botou o pai na cadeia. Nenhuma foto feliz para o portarretratos do casal evidenciou o apodrecimento do amor. Os dez anos de sobriedade zerados no primeiro gole de whisky. A lingerie sexy, ele experimentou no grande espelho do banheiro, depois sob o palitó na festa de debutante da filha. Com o binóculo, esmiuçava a rotina da vizinha, seu closet atulhado, sua barriga negativa, seu marido tatuado. O jeans, uns números a mais, a motivou ao regime restrito à gordura e proteína animal. Menos doze quilos, a cintura não fechava, apelou ao jejum intermitente, a uma dieta à base de anfetaminas e diuréticos. A calça, como se encolhesse, insistia em não servir. Por fim, na deep web perdeu de vez o gosto pelo jeans, mesmerizada por Nóri, digital influencer com receitas práticas de bulimia. A senhora do 619 redescobriu um mundo de fantasias com habbit, ergométrico e em seis velocidades. O marido, pacato pintor de paredes, não sabia como arranca-la daquele aliciante mundo de espelhos, devolvê-la para insatisfatória rotina cotidiana. 

Afundada no sofá em frente da televisão de tubo, a mulher das caixas sonhava bonecas russas. A tarde correra exausta com o recortar, encapar, enlaçar outros regalos desconcertantes: um terço de prata, um quebra-cabeça branco de duas mil peças,  um exemplar em francês de Bartlebly, um narguilé importado, a pata de um macaco. 

O interfone tocou. Empilhou todas as caixas, para não perder a viagem e desceu esbaforida com todos os embrulhos na mão.

A espectativa diária de um mal maior tomara o edifício e 

Silêncio

Havia uma mulher que começou a perder os sons da casa. Lavava louça quando o som da água parou, só ouvia o tilintar de pratos e talheres. Outro dia, o latido desesperado do chiuaua sumiu, terça, não despertou com o choro da bebê; até à troca do taco do andar de cima esteve indiferente. No otorrino para os exames: o tímpano, o martelo, a biforna. O labirinto em caracol dava voltas. Receitado um medicamento para cerume, teve a mesma eficiência de um colírio. Não há registro do fenômeno em literatura médica, disse o doutor afastando o otoscópio. Pegou a bolsa, estendeu a mão. Vida que segue. 

No iletrado ouvido, contudo, sons iam-se de repente, isolados de outros. O toque do interfone com as compras, o grave do marido pedindo a toalha. O choro de birra da filha no berço. Um dia, ao passar roupa, sumiu do rádio aquela canção do Roberto. 

Removidos os gritos e hipéboles da vizinha, que não só a apaziguavam, a integravam ao desespero feminino universal, sentiu-se um tanto mais solitária.

Havia, contudo, algo de positivo na seletividade de sons. O ronco do marido ao lado, os resmungos e rompantes da filha adolescente, as chamadas de telemarketing. Sons partiam, outros ficavam sem ter clareza de o porquê. O bom é que logo se adaptou àquilo, entendendo-o não como um fardo, mas um dom. Uma manhã achou que o aspirador de pó estava um pouco demais, e eliminou o ruído. Noutra, uma discussão entre vizinhos foi silenciada, bem como as queixas de saúde da sogra, da mãe, o ruídoso noticiário da tv. Descartou, enfim, as gotas inúteis no ouvido para se fazer guru de si mesma. Iniciada na prática do silêncio, fundou um novo método zen:  o mutismo.

No curso dos dias, desabilitava os ecos dos corredores, o zunzum das crianças, o bater de portas, louvores e melismas que, desafiando a audição divina,  escalam dez andares do prédio e penetravam sem dó seu sagrado lar. Na mesa, experimentou calar as bocas, o sorver das sopas. Ao amamentar, apenas o leve som da sucção de sua bebê, o leite fluindo até seu pequeno estômago.

Uma noite, o horror: o silêncio absoluto e apavorante no breu. Ouviu o correr do sangue, o bombear da aorta, o crescer ciciante dos cabelos. Sentiu-se tonta, solta, sem coordenadas. Se pisasse no chão escorregaria, cairia, nauseada. Estendeu a mão apoiando-se no peito do marido e escutou a arritmia. O cateterismo às pressas evitou o infarto fatal, o dobrar de sinos, as ladainhas, o choro, os pêsames sussurrados, as roldanas descendo, o flap das pás de terra sobre o caixão.

Anichada no sofá com as filhas, o marido e a chiuaua, assistia a um filme de super herói enquanto isolava os efeitos sonoros que sabia feitos artificialmente com chocalhos, lixas de madeira, mixers, máquinas de lavar. O avô do herói disse que grandes poderes trazem grande responsabilidade. Ela, que sentia ter abdicado um pouco de si ao se fazer mãe, pensou em quantos não salvaria com o dom que mantinha em segredo num misto de calado orgulho e exasperada inconsciência. 

Uma voz interna vinha às vezes recriminá-la, fazê-la sentir-se mal consigo mesma. Mas dentro de um número infinito de vozes, essa era apenas mais uma. Ela tinha escolhido a sua própria, e por que tinha poder, ela a silenciou 











Sua família por vezes se aborrecia com suas ausências. De fato mudara: fragmentadas lhe vinham as notícias do mundo, da mãe, da amigas, do zumzum dos dias. 

Se recriminava, achando-se relapsa também com eles, dona de um interior vasto, inacessível. O que estava fazendo consigo? Uma voz interna feminina, séculos de mulher, como se culpada de si. Quase se sentia mal consigo mesmo. Dentro de um numero infinito de vozes, essa era apenas mais uma. E ela tinha escolhido a sua própria. E porque tinha o poder, ela silenciou essa outra.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Como usar o RTX Voice com as placas GTX

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domingo, 7 de março de 2021

ASSOMBRO

Eu era um menino triste, um menino solitário, um menino irremediavelmente só. Eu tinha um buraco no peito, um oco na alma. Desde sempre eu era quase condenado a não existir, não ser. Berravam os meninos que brincavam de taco na rua, ignoravam meu chamado, davam as costas para mim. Ninguém me tocava no pega-pega. Nem bandido nem ladrão vinham me ferir; não me queimavam nas queimadas. Eu era triste. Eu era só um menino. Eu era só. Eu nem era, eu tinha sido.

Por isso, quando aquele menino novo, de olhos cinzentos e transparentes falou comigo, eu gaguejei. Não sabia mais falar. Mas ele riu, contou de uma cidade tal, de uma escola longe, da viagem de três dias, do pai militar sempre em mudança, da irmã caçula, a mãe que ordenava compras no mercado. O mais especial, o amigo para vida toda. 

Perguntou para mim onde brincava. E eu mostrei a casa. Aquela velha no fim da rua. Os meninos sempre iam lá, uns com os outros. Diziam, era assombrada, de dar medo. Iam aos bandos. Ir lá sozinho não tinha graça, mas eu vivia lá. Eu não sorria há muito tempo. Mas o menino. Eu nunca tinha visto o menino, e o menino, me visto. E eu pensava comigo, amigos para sempre!

“Vamos” – ele disse, corajoso.
O olho claro, as veias azuladas, transparentes. Se pegasse nele, por certo que seria frio. Fomos. 

O portão rangeu. Ele riu, riu nervoso, mas esperto, como se não fosse de verdade aquele medo de assombração. "Coragem!," eu disse. Eu que não tinha medo, que estava feliz de não estar sozinho, daquela aventura com o menino estranho. E para me gabar, falei: "eu não saio daqui." Mas não disse, que nunca subia nos quartos. Os quartos me sufocavam, eu nunca nunca entrava lá.

“Espere!”, ele disse. "Ouvi um barulho, bem lá em cima. Escutou?"

Eu gostava da camisa do menino, do brinco que ele usava, e de ouvir a respiração, da fumaça que saia de sua boca azulada de frio. 

“Tem alguém lá em cima. Vamos subir?”

Fiz que não, mas ele já se adiantara, rangendo escadas que podiam se partir, mesmo com a leveza de seu corpo. Já estávamos no corredor. 

“Está ouvindo esta canção de mãe?”

Então ele me disse que ouvia coisas, que tinha acontecido uma coisa com ele, a capotagem de um carro contra o muro de uma casa. Quase casa igual a esta. Se fechasse os olhos, podia andar pela casa inteira, como se vivesse ali. Eu acreditava? O nome dele era Maximiliano. 

Uma porta se abriu. Sem ver seu gesto, a janela estava aberta para luz entrar. Olhei seu rosto pálido num espelho empoeirado. Ele não me viu refletindo, mirando-o. E de repente, tive medo do menino. Aquela coragem má. A casa era meu esconderijo no mundo, não fosse ele querer roubá-la. E já não o queria para amigo. Quis puxá-lo pelo braço, fiz de estender a mão, mas ele se precipitou pelo corredor. 

“Não vá, eu disse. Ninguém nunca entra no quarto.”

“Você já brincou da brincadeira do copo?” Ele me perguntou e disse: “O copo disse que eu morria novo. O copo diz que eu morro sempre.” E riu. 

Estávamos no quarto. Ele fechou os olhos, os dentes alvíssimos, e foi falando: "Um menino morreu aqui. Foi o pai, pôs as mãos no pescoço do menino. Que o menino estava doente. Era doente. Tossia arranhado."

“Mentira!” - gritei, engasgado. Ninguém nunca tinha me contado isso. Ele me assombrava. “Acabou a brincadeira”, disse. Já não gostava dele. Que ele fosse embora! E ele riu, agora gargalhava, apontava o dedo para mim e ria. Chutou o cavalinho de pau. Arrancou furioso o dossel da cama, jogou as gavetas no chão. Queria bater nele. Vá embora! Eu gritei: "A casa é minha. Só minha. A casa é minha! Só minha!"

Foi quando me viu no retrato preto e branco, antes da tuberculose, da mão do pai apertando minha garganta. "Dorme, filhinho..." E eu dormi.

Ele gritou. Gritou até ficar vermelho. Gritou descendo as escadas. Tropeçou no degrau enquanto eu atravessava portas, tossindo essa tosse, anos e anos, sem pai nem mãe, sem esse amigo mau; mal, para toda vida. 

“Você vai morrer” – eu gritei. “Você vai morrer!”, repeti. “Você morre, agora!”, eu gritei, assombrando-o.  

Ele partiu correndo, o corte na perna já sangrando. Era minha aquela casa. Eu vivia ali. Era só um menino triste, um menino solitário, um menino irremediavelmente só.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Os velhos

OS VELHOS

Era um casal de velhos, e o destino deles era a morte, porque esse é o destino de todos os velhos. 

Moravam do outro lado da rua, numa casa em frente a minha. Tudo ali era antigo: a frente de azulejos, a cozinha de ladrilhos, as torneiras de cobre gotejando metal. Mas, demoliram a casa e ficaram só os canos, igualzinho a um cemitério com ossadas ao sol, mas sem a brancura, sem o brilho que tem o metal novo. 

Eram velhos de verdade aqueles velhos. Ofereciam água em copos de cristal, as bordas douradas e o fundo fosco. Deviam ter uns cem anos. Eu não aceitava.

“Muito satisfeito”, dizia, conforme tinha ensinado minha mãe. 

E eles gostavam de mim, queriam me agradar. Diziam que eu era muito "educado", que meus pais deviam ter orgulho de terem um filho assim.

Sábios?! Não sabiam de nada aqueles velhos. Esqueciam as coisas, suspendiam minutos meu nome na voz.

Eu não gostava da velhice dos velhos, dos passos lentos, das dobras da pele, da espuma nos cantos da boca. Mas os velhos tinham tevê. E ninguém tinha tevê naquele tempo.

Então eu assistia com o velho ao Corinthians, enquanto a velha rezava, ou penteava os cabelos, ou pigarreava no quarto, no fim do corredor, e saía arrastando chinelas, fazendo ranger as dobradiças da porta, os tacos soltos do piso. Era uma velha impaciente aquela velha. 

Eu olhava os retratos da parede da sala. A cortina estava sempre aberta. A torneira tingia de amarelo o fundo da pia. Mas o velho orgulhava-se da sua dentadura. Sorria muito com ela. Tinham tido filhos e netos que às vezes vinham visitá-los, para quem eles me apresentavam repetidas vezes, sempre do mesmo modo: “Este é o Bruno, filho da vizinha”. 

E os filhos, netos, sobrinhos respondiam que era muito prazer, conforme tinham ensinado os velhos. 

Rodando pião no fundo da casa, pensava que, idosos, não iria visitar também meus pais. Meu pai que não me via nunca. Minha mãe que teimava em não me esquecer. Ou os irmãos maiores que me odiavam. 

Mais velho não, eu não iria pedir “a benção”; nem trazer chinelos, responder "senhor, senhora". Eu não iria me “comportar”. Todas essas coisas que eu fazia sem vontade, e que os velhos achavam bonito. Isso por que eu era “muito educado” só por fora, por dentro eu era um garoto mau. Eu era um garoto mau que fazia tudo que deve fazer um garoto bom. Na missa, eu bocejava escondido. Sempre mentia na confissão. E nunca faltava na escola, pois a escola era só o maior dever. 

Os velhos não, eles achavam que a escola era o meu lugar mais legal, mas lá eu me sentia como que amolecido. As professoras gordas ensinavam com grandes cópias na lousa; e se irritavam com minha letra torta. A sopa era muito ruim e sempre havia alguém mais forte, mais rico, mais tonto, mais bacana ou babaca; mais bonito do que eu. Eu gostava apenas de apontar o lápis com estilete, como gosto ainda hoje.

Os velhos eram bons comigo e me deixavam apontar lápis. Com eles, o velho desenhava grandes peixes numa agenda de 67, e eles, de tão perfeitos,  pareciam prateados, embora eu o visse desenhar com lápis 6B. 

Eu recusava a água, e a velha fazia para mim limonada, que agora eu tomava e deixava sempre um pouco no fundo do copo. O velho ria de orgulho dos dentes, enquanto a velha arrastava seus chinelos corredor afora, levando na mão seus bonitos pentes de acrílico.

Um dia ela penteou meu cabelo. O velho disse que meus dentes eram tortos, mas bonitos (ou fortes) e que era para eu cuidar deles. 

Então eu gostava de assistir ao Corinthians ainda quando perdia, pois o velho batia na mesa e o cão soltava um uivo alto. E a velha arrastando chinelas, saia do quarto: “O que é que está acontecendo, aí?

Em casa, eu escondia os lápis dos irmãos e os peixes ganhados debaixo do beliche, numa caixa de tênis Bamba. 

(Um dia, sem mais nem menos, o relógio da sala parou. O cuco parecia morto. Eu estava na calçada jogando as sete pedrinhas e ele me chamou. “Menino, vai buscar óleo de máquina no Seu Juca”. Foi como eu entrei na casa, conheci os velhos. Passava naquele instante o jogo do Corinthians.)

O cuco, eles chamava o Onofre. Eu gostava deste "o-Onofre". Eu gostava daquele relógio, daquele cuco. E agora eu gostava do velho e da velha e do Corinthians e da dentadura do velho e da limonada, apesar de deixar sempre um resto no fundo do copo. Gostava quando a velha me penteava, e até da desgraça dos azulejos floridos que davam cada susto na gente, quando despencavam da parede da cozinha. 

“Um dia você vai ter uma casa como esta”, eles me disseram. 

Mas eu não queria aquela casa, casa nenhuma. O que queria era viajar, conhecer outros lugares. Eu queria ir. Eu disse isso para os velhos. 

“E a sua mãe? Como ia ficar sua mãe? Eu ia deixar mesmo a família?” 

Eu ergui os ombros.

“E você vai levar o que nessa viagem?” Me perguntaram ainda. 

A velha tossia mais alto, mais alto, mais alto, a cada dia. O velho bateu na mesa, se ergueu quando o Corinthians perdeu. Mas a velha não veio do quarto dizendo: “O que está acontecendo, aí?”

“O que está acontecendo?” se perguntou o velho. 

Mas a velha tinha morrido. O pente na mão. Morreu de cabelo escovado. No caixão, prenderam num coque. A velha inundada de flores.

O velho nem chorava nem sorria. O velho usava marcapasso. Eu sei porque numa hora ele me apertou com força, o meu ouvido no peito dele dando tiques.
 
“Eu e o-Onofre temos uma coisa em comum”, ele disse.

Então eu olhei para o velho, os meus olhos assim inundando o mundo. “Velho, eu te amo.”, eu ia dizer.  Mas ele apertou com tanta força a minha mão e suspirou: “Diabo de menino!” 

Ah, o velho gostava de mim!

Ele não queria ver mais o Corinthians, não dava corda no relógio, nem a cortina, abria. Deixava os dentes no copo. Queria só saber de dormir. 

“Entra e senta”, ele dizia. 

“O menino tá perturbando?”, perguntava minha mãe.

O velho abria o portão ou eu saltava o muro. Ele me deixava só com o Corinthians para fazer o suco de limão que ele esquecia de adoçar. Eu tomava assim mesmo, e dava corda no o-Onofre. Se percebia, falava: “Você é muito educado”. E arrastava as sandálias da velha, rumo ao quarto. 

“Quando você viaja?” 
“Logo, velho, logo. “ - eu dizia.

E eu penteava o seu cabelo prateado. 

Numa segunda, minha mãe me levou para pôr o aparelho no dentista. Olhava meus dentes de metal e dizia que eu não sabia como tinha sorte. 

Então eu ganhei o lugar para excursão de tanta prenda que levei para escola. E eu fui. E o mar era verde, não era azul. E a areia da Praia Grande era uma continuação do asfalto. 

Quando eu voltei, soube que o velho tinha morrido. 

Pulei o muro da frente. Eu tinha que ver o vazio do velho com os próprios olhos. Arranquei três vezes a placa de vende-se posta no jardim. Apanhei três vezes do meu pai, que vivia sempre ausente. Mas antes eu já tinha tomado coragem e arrombado a porta do fundo. A família dele tinha levado tudo, tinha levado até o-Onofre. Pensei que vinha gente morar na casa um dia. Mas ela ficou assombrada, com azulejos que saltavam das paredes. Até que mandaram arrancar até os ladrilhos, derrubar as paredes. A ossadura dos canos sem brilho ao sol. 

No fundo da casa, entre escombros, eu encontrei a dentadura do velho. Pensei no velho para sempre triste. E guardei a dentadura no beliche. Depois numa gaveta. Agora, no porta-luvas do carro. Está sempre lá quando viajo. Às vezes sorrio para ela. Às vezes aponto lápis com canivete e tento desenhar peixes prateados. E quando estou muito triste, eu penteio meus cabelos, enquanto olho no céu infinito essa profusão de tão velhas e perdidas estrelas.

Versão 2021

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Benigno

Havia uma mulher que desenvolveu uma gravidez imaginária. Sentia o bebê se mover em seu ventre há quatro meses. No médico para o pré-natal: nada no ultrassom, nenhum batimento cardíaco. Encaminhada ao psiquiatra, descartou os tais remédios que, segundo o Google, prejudicariam o seu bebê. Num torpor onírico,  aguardava o parto sem ansiedade. Desentendera-se com o pai do rebento, que se negara à conclir o quartinho, o teto, coalhado de estrelas fosforescentes. A criança chutava como um jogador de futebol: o enxoval todo em blue, segura de ser um menino. Isolada no 708, gerava a cria à revelia da ciência, de Deus, da covid 16. O chá de bebê a distância, realizado pelas poucas amigas. Presentes aportavam via correio. Um móbile de bichinhos desinfectado com álcool em gel  emitia luzes coloridas e sonidos de carrossel. A circunferência da barriga atrapalhava na hora de passar as fraldinhas que com ternura repousavam ao lado dos sapatinhos de tricô (tecidos e retecidos por ela), em três gavetas. A montagem do armário concluída sozinha, após arrebentar a mão do eterno noivo com um martelo. Fora difícil remover o sangue dos ursinhos de pelúcia. Engraçado é que nunca tinha sonhado em ser mãe. Mas desde a pandemia, a dispensa do emprego, o basta no noivado, os vídeos de autoajuda em looping, a maternidade a tomara inteira, preenchia desvãos. Sua vida, de fato, nunca fora tão significativa. Sentia-se cada dia mais forte e confiante. Estava certa de que seria uma mãe excepcional. Que filho não teria todo orgulho do mundo de ter ela como mãe? Os dezessete anos sobrevividos no abrigo. A espera frustrada, o sufocado rancor, a angustiada resignação. Às vezes, duvidava um tanto de si, mas acariciando o ventre, como descrer do filho que nascia em si? Sim, ele poderia contar incondicionalmente com ela. Ela nunca nunca nunca o abandonaria. Seria a mãe mais perfeita que podia conceber. A mãe sonhada, aquela que nunca tivera para amar ou que um dia a amara. 

Tricotando casaquinhos de lã, esperava a bolsa romper.

Tiresias

Havia uma homem que afirmava ter nascido num corpo alienígena. O seu era um outro. Soterrada numa forma masculina estava a mulher que fatalmente era, invisível a olho nu. De alguma forma, contudo, antes de isso se revelar inequivocamente para si, evidenciava-se em trejeitos, no fino timbre da voz, em movimentos sinuosos das mãos. Sua delicadeza atiçava desejos aprisionados. Como um cisco, uma farpa, um corpo estranho e incômodo que está no outro e dói em nós,  atraía cáfilas de machucadores. Seu problema não era local, mas geográfico, deslocava consigo para onde fosse. A hostilidade do pai em casa, as surras aos urros no colégio, a saliência da cúria da igreja, a violação a caminho do rio, no campo de futebol. Sua vida pontuada por fugas:  do interior, dos vigilantes noturnos, dos fregueses violentos, do amante casado, do vício, do amor. E também daquele Deus que a negara três vezes. Agora retornava reconstituída: imagem e semelhança de si. Seu nome, ela quem lhe dera, cívil e não de batismo. Grace era sua graça. Vinha para enterrar a tia-avó que a criara antes que se recriasse a si mesma. Os hormônios que trazia na bolsa davam o arremate ao conjunto de intervenções a bisturi, botox, próteses de silicone,  e garantiam que o reflexo externo correspondesse ao interior. A cerimônia no cemitério pobre, os irmãos não ousavam se aproximar. O caixão branco, de virgem, a tia descia em glória com o lábio leporino que a impedira de casar. De olhos baixos, cravava as longas unhas no braço. Dissimulava reza, não daria o gosto de a verem chorar. Cumpridos os ritos, pagou o pároco vesgo que zombava dela quando menina. Estranho isso: na sua memória, apenas vestidinhos imaginários de chita, como quem se traveste de uma nova história.

A cidadezinha a quilômetros do aeroporto, saindo agora, às 23h, na capital. Dispensou o convite das primas envelhecidas, embarcou no ônibus e partiu, mas não foi muito longe. O rádio anunciava o breakdown: a ponte fechada isolava a cidade do coronavírus. Desembarcou do ônibus sob o olhar de uns caraminguás, e veio arrastando a mala da rodovia à estradinha de barro sem vacilar nos saltos altos. Uns vendedores de milho, um cão estendido ao ocaso. Entrou num boteco e lhe serviram uma água da torneira. Informou-se da direção e entrou na rua principal sob os olhares das casas, de uma vendinha, um salão de igreja caiada de verde, um posto de saúde aos pedaços, uma porta de garagem escrita Correios, a pequena agência do Banco do Brasil.

Ilhada nesse extremo nada,  hospedara-se desde então num quartinho de pensão e o dinheiro minguava. Na sexta prometeram no telefone, abririam a agência para saques. A tevê restrita a um canal. Concurso das deusas da Beleza, cobras entrelaçadas em cópula no mundo animal feito bastão de Eustáquio. De posse da bolsinha cruzou o passeio. A farmácia sem seringas e agulha, camisinhas coloridas morango e hortelã. Como podia repor seus hormônios trazidos na frasqueira? O posto fechado desde a expulsão do médico cubano, a tevê com notícias da capital. A rádio alternava calipsos e sertanejos, sem perspectivas de abertura.

 Os pelos retornando na cara. A voz recuperando o grave. Nessa manhã, do café nem o café: o líquido gostava à cevada e cuspe. Os olhares inóspitos de faroeste. Os frangos se embriagam, atiçam uns aos outros, há sempre um armado de faca. 

Ela roubou a faca de pao e leva a consigo. Cobriu o azul da barba  com o xale, à espera da abertura da estrada, quitar a pensão e partir, antes da eclosão de Hyde, seu inimigo.










 Acordou parada no meio do nada. 

gênero de pessoa que era. Era daquelas que transcendem, nao permanecem. Havia uma ponte, era daquelas que nao querem, necessitam atravessar. O que era estar presa no meio do nada, para alguém confinada num corpo estranho, inimigo. Presa numa estrada no meio do nada, a pensão caiada de azul. A fobia de voo, a longa jornada de volta. O enterro da tia avó que a criara. 30 horas Para-Sao Paulo. Era diretora numa escola. Nesse lugar matavam gente. A ponte interditada. Ela permanecia ilhada nesse extremo nada. Hospedara se numa pensão e o dinheiro minguava. Na sexta prometeram no telefone, abririam a agência para saques. A tevê restrita a um canal. Concurso as deusas da Beleza, cobras entrelaçadas em cópula no mundo animal feito bastão de Eustaquio. A farmácia sem seringas e agura. nao podia repor seus hormonios. O posto fechado desde a expulsao do medico cubanos. Os pelos retornando na cara. A voz recuperando o grave. Os olhares inóspitos de faroeste. Cobria o rosto com o xale, a espera da abertura da estrada, quitar a pensão e partir, antes da eclosão de Hyde, seu inimigo.

Primavera

Havia uma mulher que se alimentava de flores. Como morava em cidade, era complicado se alimentar. Tinha um paladar exigente, dificil de se satisfazer. Esgotado o menu urbano, tocava para o interior. Todo esse trânsito a enfastiava. Recorreu a floricultura próxima de casa. Cada planta exigia uma composição distinta de solo, às vezes em etapas distintas da vida. Identificou se profundamente com as glicínias. As xxx lhe pareceram arrogantes. Bromelias soberbas em seus vazinhos. Tinha simpatia por rosas. Eram simples, belas, pouco exigente nas relações. 

peixe homem apaix

Havia um homem que se apaixonou pelo melhor amigo. Ele não sabia, mas o amava. Jogavam futebol no clube aos sábados de manhã. Se entusiasmados num lance, se abraçavam e se beijavam sem pudor. Antes a esposa de um vinha assisti-lo. A namorada do outro eram muitas. O suor no campo saia no chuveiro. A nudez de um era conhecida do outro. Invejavam o condicionamento fisico um do outro. E muitas vezes treinavam juntos na academia. Cerveja no bar do Manuel com os camaradas. Sentia-se pressionado na firma. Quem não tinha problemas com o supervisor? O carro enguiçado, quem ia socorrê-lo? Era sempre convidado para costela assada por 4 horas no fogo baixo, uma especialidade. O outro trazia a nova namorada, cujo nome a esposa não fazia mais questão de memorizar. Divergiam bastante no futebol, as discussoes acaloradas, pareciam urros do truco, desapegados de argumentos, gostavam da voz grave um do outro. O outro quebrou o dente numa briga, chegava a uivar com a raiz partida do canino, nem se lembrou de recorrer a esposa 

Labia / Esperma

Havia um homem que fornecia esperma para clínicas de fertilização. Não fazia isso por altruismo, mas por necessidade. O fluido vendido pela qualidade do doador.  Ao preecher o questionário, vinha a hora de engambelar a moça. Seguindo a lógica do perfume, caprichava na exibição do frasco. O pai de origem alemã, a mãe, relações internacionais. Arranhava, oui, o francês. Natação desde criança. Turbinava a ficha para valorizar o produto. Se bem cotado pela técnica, recebia mais. Ser jovem, bonito, saudável, não mais o suficiente. Os dotes exigidos na triagem, cada vez maiores. A mulher, como somelier de sêmen, só faltava provar. O dinheiro era bom, valia a pena. Menos de dez minutos, recebia em euros. O visto vencendo, onde arranjar em espécie? Já tinha dado o sangue naquele país, aliás vendido, e nada. Para porra do esperma, pagavam mais. Quanto custa um green card em ml? Me fale um pouco mais sobre você, perguntava a técnica, preechendo os dados. Concluindo Direto, em Berlim? O cartaz na parede: "Povoando o mundo, realizando sonhos." Ele em verdade, não mentia. Era um cara duro, cada qual oferece o que tem. Seu talento para farsa vinha da convicção. Se a mãe era cafetina, por que não um pai alemão? Suas relações, via de regra, não deixavam de ser internas e internacionais. Na pensão onde se hospedava, aprendera com os haitianos os termos mais chulos em francês. Expulso da faculdade falsificando TCCs. Nas enchentes da quebrada, ou se aprende a nadar desde cedo ou se morre afogado. As costas largas, o sorriso sexy, quem podia duvidar? Ela ia checar as redes sociais, esmiuçar o seu histórico em tempos de perfis fakes,  pós-verdade, teoria da conspiração? Ele
Se tiver prazer no que faz, nunca terá que trabalhar na vida. 

Morava numa pensão de moços, desde que descobriram q vendia ttcs na faculdade. A grana curta q recebia com atendente numa academia não dava conta do pf diário. Era jovem, alto, belo e saudável, mas não o suficiente para valorizar seu produto. Por isso, mais q mentir no questionário, reinventou se. Escondia a calvicie de gerações, o câncer dos avós, a hemofilia. Se quisessem, eles que examinassem seu dna. Sempre lera bastante, no buraco de onde saira, lhe dera um vocabulário q permitia flanar na sociedade. A imaginacao advinda desde o abandono do pai, fizera dele um bom farsante. Sabia assimilar com velocidade, era mestre na arte de simular. Turbinou o currículo acadêmico nas redes. Seu xxx era invejável, quase um CO de multinacional. Na coleta dispensava o porno usual. A geneticista desconfiada da lábia. 

Uarii completo

Havia uma mulher que foi achada vagando na floresta. Foi encontrada por nativos de uma comunidade indígena. Via-se nos olhos que não era dali. Indagaram nos arredores se alguém perdera uma loura, magra, sapatos altos e organdi. Vasculharam sua bolsa em busca de identificação. Deram com uma brochura barata de Sidney Sheldon, repleta de anotações miúdas ao pé da página. Nada que qualquer um deles pudesse compreender. Era época de cheia, nem os garimpeiros se arriscavam por ali, quanto mais turista. Infestada de mosquitos, sem os paetês arrancados por curumins curiosos,  só fazia se abanar, um olhar aturdido para os lados do rio. 

A mais velha da aldeia cansou daquilo, arrastou-a consigo como quem se apossa de um traste inútil. Demorou acertar-se com a rede, por fim, enganchada, dormiu a eternidade de um dia. 

Acordou faminta. Não estranhou a comida: sorria para todos agradecida. Warii a achou feia. Os homens que tinham saído de canoa na chegada, voltaram em duas semanas sem resposta, mas pelo menos tinham conseguido a troca pelos bens. As chuvas voltaram mais forte, desalojando ribeirinhos. Informados da intrusa, nem sinal de fumaça dos agentes da Funai. 

Nessa época, já tinha se apegado muito às crianças. Vivia com duas ou três no colo, outras enganchadas, nas ancas secas. Os cabelos longos, agora ondulados. Parecia uma Iara desbotada.

Cogitaram levá-la à vila próxima. No rádio contactariam a capital. Concordava? Ela aquiescia no gesto surdo das mulheres da aldeia. Amanhã, sem falta, acertavam. O amanhã sempre adiado, virou um futuro provável do qual ela não mais trataria.

As garças, no ar graciosas, quedavam desengonçadas no chão. Ela, quando apertava a Birkin no peito, o ar era todo de garça. As duas índias que tinham batido nela, agora riam de sua cara rosada de cauim. Já nessa altura atendia por Gootagi. E  começava a ganhar a confiança de Warii. 

Como se lembrando a todos que viera de fora, ela tirava a brochura da bolsa e lia em silêncio. Mas as crianças queriam também a história, então ela lia para elas. As mulheres sentavam em volta. Warii, de longe, vigiava. Nada daquilo fazia sentido, a estranheza que era a sua voz. Ela então ficava quase bonita. Passado tempo, do nada se cansava e metia o livro na bolsa.

Nos meses que se seguiram, nem sombra de avião vindo do norte.  Nenhum helicóptero de busca. Sem internet, celulares, drones nessa época, as chamadas só de DDD. Um bugre ofereceu-se para levá-la de canoa à vila. Em conselho com as mulheres, decidiu ficar. Antes de partir, entregou-lhe a bolsa com a capa arrancada do livro. Dentro, ela rabiscou uma mensagem. Warii atento, cisudo,  não queria o governo ali. O bugre pegou a bolsa e a mensagem. Depois daquilo, nem notícia. 

Se naqueles meses de cheia já se fazia entender com as mãos, breve dominava a língua de passarinho das crianças; e se fez mestra no ralar da mandioca. O cabelo aparado pelas companheiras. Gootagi, tinha perdido o olhar desmaiado, a palidez do corpo de tanto rolar no margem do rio das Piacambas

Ainda ia lendo aquelas páginas de amor impossível. E a gente toda já recitava a trama confusa de cor. Tinham todos muito gosto de lhe ensinar as coisas que ela custava a aprender. De uma hora para outra ela acertava de um jeito diferente muito dela que passava então a ser o modo de se fazer dali para frente. Esse prazer em ensinar o que não sabia agradava muito Warii

O Sidney Sheldon de treslido já se tinha desfolhado inteiro, ficado amarelo. As páginas soltas que a conectavam com remoto antes, lidas em desordem, embaralhavam  tempos e espaços. Um personagem morto renascia no capítulo seguinte jurando vingança pela traição ainda não sofrida, o desfecho trazia uma revelação cujo mistério era sabido de todos.

Os anos fizeram em frangalhos o vestido da chegada. Aqueles sapatos que emprestava para as moças exibirem na vila sumiram sem rastro. Por esse tempo já era possível ir e vir da reserva. Ninguém reportava mais seu caso, sua presença nem fazia espanto. Quando as autoridades estiveram ali, mal repararam nela.

A índia velhíssima caiu doente, Gootagi cuidou dela. Desde que chegara ninguém mais tinha partido, como se a morte a evitasse. A velha que não a temia, tinha visto os avós erguerem a grande oca central, a chegada dos brancos, o insubordinado subir e recuar das águas. Queria um fim antes que não houvesse mais destino para seu espírito. 

Gootagi cuidou dela mais que pode, mas ela a expulsava de perto. Acharam-na, depois, no fundo da rede: o corpo diminuto, esvaziado, parecia caber na palma da mão. Os avós de seus avós a tinham levado dali.

Então, num fim de tarde Gootagi se acertou com Warii e foram viver juntos. Foi na semana que leu pela última vez o que restara daquelas páginas distantes, a impossível história. Fez questão de dar uma para cada um de presente. Warii pescou um jaú de não caber nos olhos de tão grande e a vida seguiu adiante. 

Logo estava grávida. A barriga larga de seu filho com Warii. Para ele, ela nunca tinha sido Gootagi, ou o outro nome segredado, mas continuou sendo. Era de repente bonita, não como as outras, mas calma, redonda, descansada. A barriga dava saltos. 

Faltando pouco mais de um mês, a velha a visitou em sonho e lhe contou que a morte a procurava e a criança. A médica da aldeia confirmou o prognóstico. Não, ali faltavam recursos, não viveriam.

Mas ela estava decidida. Ia fazer do seu modo. Já se lembrara de tudo, do nome perdido, de vagar na escuridão e dar com a estrela, imensa, e o urutau manda-lua pousado, longe, à direita do rio, cujo canto expulsou o setestrelo do medo, do desespero e da morte. 

Warii devolveu-lhe os sapatos. Ele os tinha enterrado para que não tivesse como voltar. Queria agora que se fosse? Pela primeira vez tinha medo. 
Mas a outra ficara lá trás, esquecida, não era quem era. E quando a velha veio, no derradeiro sono, vê-la, ela aceitava partir?

E tudo sucedeu conforme tinha que ser, sorte e azar misturados, sem sobrepeso de partes: a vida só, plausível. E se passaram anos.


Como é possivel aquela ausência forasteira? Ela tinha ido e deixado seus gestos e o jeito do fazer de tudo, a história lida passada de boca em boca. Warii se lembrava dela como algo que não se capta. Ela também dera sentido ao que antes não fazia. 

O avião monomotor desceu em rasante na aldeia. Finalmente tinham achado jeito de posar. Dentre os agentes da FUNAI, Jagigi, agora Joaquim, intérprete. Desceram do avião o piloto, dois gigantes ruivo-alaranjados e a mulher pequena, muito magra, os cabelos brancos tinham sido louros, a bolsa na mão de Gootagi. 

Ela tirou de dentro a mensagem. Então o bugre cumprira a missão. Disseram o nome a Warii, pois desconheciam i verdadeiro. Eles a buscavam. Mas ela agora, no Guajupiá. Não entenderam. Ele os levou para lá onde ardera, há dez anos, a grande fogueira. Jagigi precipitou-se: onde dorme em repouso, de volta sob a terra. Compreendiam?

A velha em desespero não queria acreditar. Queriam o corpo. A mulher e os homens se abraçam. Warii não aceitou que a fosse levada a parte alguma. Discutiram entre si, selvagens. Pegaram as páginas, recuperadas, devolviam agora, levasse-as, não precisavam mais, tinham ficado todos com a voz, o jeito, o gesto cativo de Gootagi.


Deram partida no voo. Warii viu o avião subir espantando as garças. Os meninos saíram de dentro da mata, aborrecidos de terem pedido o espetáculo do avião. O mais novo, correu para Warii. Tinha seu nariz, sua boca, os ombros que seriam os do pai. Sua cor não ficava clara, os olhos azuis de Gooagi.


Fosso / O anao

Havia uma mulher que se apaixonou por um anão. Encontrara-o numa sexta, o carrinho lotado da feira, das compras que levava para sogra. Ele deu  passagem para que entrasse. Sabia que residia no 27o, pois lhe pedira que apertasse esse número no elevador. Ela desceu antes. O apartamento da sogra era no fundo. Premeu a campainha e deixou as compras. Está tudo bem? Tudo bem, disse a velha numa voz vascilante. Não esquecesse de desinfectar os pacotes, a alface fresca, para o dia. Pela porta indagou se a amiga morava no 27o. Ela confirmou. Uma hora dessas subiria para ver como estava. 

Em casa interfonou. A velha demorou a atender. Tinha feito bolo, ela aceitava? Sim, o anão ali desde novembro. Empresário ou logista, coisa assim. De meias palavras. Dividiam o sinal do wifi, que pagava em dia. As crianças. 



Sem constrangimento algum, pediu que apertasse o 27o andar. . A gravata azul, nenhum constrangimento na voz grave. Sentia se util e excitada.







 Havia uma mulher que se apaixonou por um anão. Encontrara-o numa sexta, o carrinho lotado da feira, das compras que levava para sogra. Ele deu  passagem para que entrasse. Sem constrangimento algum, pediu que apertasse o 27o andar. Sabia que residia no 27o, pois lhe pedira que apertasse esse número no elevador. A gravata azul, nenhum constrangimento na voz grave. Sentia se util e excitada. 

Looping

Havia um homem que sofria de narcolepsia. Qualquer emoção mais intensa era nocauteado por um sono violento que podia durar minutos ou horas. 

Tornou-se recluso, metódico e de hábitos arraigados. Refugira-se numa quitenete assimétrica legada pelos pais, sua torre de marfim erguida nos anos 50,  de 60m2. Para viver, traduzia livros técnicos: purificadores de água,  aspiradores robôs, aquecedores elétricos. Os arquivos chegavam em pdf editável e eram despachados no mesmo email. Antes da covid-19, já exercia sem dor o isolamento social. A descoberta dos estóicos fizera sua existência suportável. Defendia-se da instabilidade constante do mundo com o escudo da apatia. Assim, teria alcançado o nirvana por vias da indiferença ao próximo. Por se manter a distância, amava só a si mesmo; por isso há anos não tinha crises.



A pandemia não mudara em nada sua rotina. O prédio ruidoso o aborrecia sem arranhar sua existência invitro; até a mudança de um casal para o apartamento ao lado estilhaça-la.


O sofá, as estranhas luminárias,  a mesinha de acrílico, o saco de boxear. Assistiu-os chegar pelo olho mágico. O vizinho era grande, todo braços e músculos. Ela, magra, de franhinha sexy: pareciam recém-saídos de um reality show. Giraram a chave. Bateram a porta, ele achou que voltaria ao silêncio, pré-reforma e marteladas, troca de fios e papéis de parede. Dali a dias: seu inferno pessoal.

A discussão começou às treze. O tom alto, não aos berros, para mais se fazerem ouvir. Ela tinha que se fazer respeitar, flertando com todos assim! Ele era trouxa? Ela retrucou que estava louco. Drogado, tinha ciúmes, inventava complôs. Não era boba, não aceitaria mais isso. Ligaria para o pai. 

As paredes originais substituídas na década de 80 por placas de dez cm não davam conta de barrar o som. Subitamente, ele, a quem não atingia a fúria do mundo, se via exposto. O homem ameaçou esganá-la, ouviu-a recuar, o homem correu e esmurrou forte a parede. O quadro da mãe tremeu no prego, e ele caiu no sono.

Acordou horas depois no tapete. A sala no escuro. Nenhum barulho que não fosse o som abafado da novela nos vizinhos. Abriu a porta, o corredor vazio. Certamente a polícia partira há muitas horas. Não queria pensar no crime, amanhã os burburinhos no corredor. O trabalho atrasado sobre a mesa, tomou o café e o continuou.

No dia seguinte, nem um ruído indistinto no andar. Estranhou a calmaria. A monotonia da quarentena exigia que se vivesse a vida alheia. Era cedo. Almoçava religiosamente as 12. Às 13h, reiniciou-se a discussão. 

Não era tolo. Ela flertando. Estava louco? Chamaria o pai. O horror daquilo, o atingiu em cheio. Não estava morta, nem ele preso. Ele tivera uma premonição daquilo. Um deja vu. O outro ameaçou esganá-la. Ela se recostou na parede. O soco dele estremeceu o quadro. Agora a pegara pelo pescoço, e ela implorava pela vida. Estendeu a mão para alcançar o interfone, mas lhe veio o sono, caiu.

Despertou na madrugada. O prédio em frente imóvel, a impressão de estar diante de uma fotografia só era traída pela intermitente luz de um abajur numa janela. Nenhum carro na madrugada. O vírus pora o mundo em suspensão. 

O andar calado, se tivesse havido morte, ainda aquele silêncio? A louça no escorredor, seca, ele não a guardara. Apanhou um comprimido vencido, tomou um e se deitou.

No email, chegaram novos trabalhos. Em dez anos nunca se atrasara com a tradução. O armário repleto de latas. Fizera estoque para um mês. Preparou uma sopa. Metade foi para geladeira. Então ouviu um princípio de discussão. Eram 13h no relógio. Foi tomado imediatamente por uma vertigem. Era questão de segundos. Lançou-se no sofá e desmaiou.

Acordou e não era noite. Havia uma movimentação tranquila nos corredores. Com um copo recostado na parede, os vizinhos pareciam mortos. Apanhou o interfone. A campainha soou abafada e, de repente: alô. Era a vizinha. Ele pôs o fone no gancho. Estaria enlouquecendo?

A vida social desde cedo em escombros. Um rol de especialistas e o veredito unânime: o hipotálamo falhava no processar das emoções. A decisão acertada do litígio com a vida, do exilio, da segura solidão. Tudo que não servia para nada se o final terminaria por enlouquecer! Não, decidiu, mais nenhum exame. Mas se não fosse isso? Se zombassem dele? Impossível: os anos renovaram a vizinhança, nenhuma intimidade com ninguém do andar. 

Todos os dias amanheciam iguais na quarentena. Dispôs a cadeira diante da parede e esperou. A discussão começou pontual às treze horas. 
Apanhou o interfone e ligou para portaria. Alô, disse o homem. Estão se matando 706, sussurrou tenso. Não consigo escutá-lo, repetiu o porteiro Poderia falar mais alto?! O homem esmurrou a parede. A mulher não conseguia gritar. Quer que eu mande alguém ai? Perguntou o porteiro. Alguém em sua casa? Não! Ia dizer, mas teve medo e desmaiou. 

Talvez fosse o vírus. Tinha sido infectado e não sabia. Talvez estivesse em coma, entubado e em decúbito dorsal. Feito esses filmes ruins que no final tudo, só um sonho, o cara estava morto e o público é traído. Beliscou-se, ciente de que, sonhando, sentiria o beliscão. 

Faltando 5 minutos, colocou a cadeira e esperou. E se ligasse agora, alertando-a?

Alô. Ele disse. E antes que pudesse dizer, fuja daí, ele vai te matar; ela respondeu: Não posso falar agora. Desligou. Flertando no prédio? Acha que sou trouxa? Esbravejou o marido do outro lado, agora, mais violento. Colocou as duas mãos, rápido, no ouvido e desabou.

O salto mortal do rapaz do prédio em frente. A desratização do andar levantou uma névoa que botou um pó fino na superfície dos móveis. O sumiço do anão anunciado em cartazes de procura-se. Tais eram os eventos que antecederam a entrada de sua existência naquele looping temporal. Vistos a distancia, eram inegáveis prenúncios de caos. 

O instinto já gasto de autopreservação emitia inequívocos sinais de "fuja para a floresta." Uma parte aleijada dentro de si, sussurrava para que salvasse a moça. Como um centauro indeciso entre suas duas naturezas, não procurava mais explicações, mas um sentido para aquilo. Sabia, por exemplo, que a ação de ignorar não afastaria o problema, que o que sucedesse aos outros, também o atingiria. 


Sentado diante da parede esperou. A poltrona inclinada, ao menos se livraria dos hematomas, do mal jeito das quedas. Havia retirado os quadros, afastado móveis, a parede nua como uma tela de projeção, um teatro. Se empenhado, era possivel ver o desenrolar da cena, precisa, sem variações: "somos joguetes do destino lhe diria Shakespeare, Hamlet, ou ambos. 

O soco na parede, depois a enforcá-la. Este era o novo normal. A gente se adapta a tudo. Esperou que ela sufocasse, mas de repente o marido a largou. Dava-lhe tapinhas no rosto e implorava, acorde. Então num solavanco ela tinha um acesso de tosse. E vivia. Comovido, desmaiou. 

Às 15h20, de pé, era tempo de botar ordem na vida. Reduziu à metade do tempo habitual à tradução do manual de aquededor a gás e  à de um minifrigobar. Colocou roupas na máquina, recolheu o lixo da casa e aventurou-se, paramentado de escafandrista, até à lixeira do andar. De volta à cozinha, seguiu passo a passo às instruções que traduzira para elaboração do mais perfeito café feito numa máquina italiana, e sentado frente à parede cogitou ligar para o moça.

As três tentativas anteriores, era sempre o marido atendia. Fingiu duas vezes ser um entregador de pizza equivocado com o número. Desligar, como fizera a primeira vez, poderia desencadear uma tragédia. Ouvia-o socar com energia o saco de areia.

No espelho do banheiro, um homem magro, alto e pouco atlético. No confronto com o outro, a ameaça do soco já o poria para dormir. No tempo do dr. Freud, para o seu problema só cocaína. Por isso, apreciava tanto tomar café. Quem sabe um dia, ao acaso, não daria com o grão da cura.

As 13h06 ele socava a parede. Às 13h12 ela sobrevivia. Depois, ele engendrava um monólogo que evocava perdão, justificava-se com a pressão que sofre um delegado, a morte recente do pai. Beber era uma forma de sobreviver à pandemia. Não compreendia? Ele só batia por que amava. Ele pedia um abraço, ela cedia, ele forçava um beijo, depois sexo. Ele chegava até aqui e desmaiava. Cada não dela o mortificava. Depois do terceiro pare, reiniciavam os tapas. Ela evocava Deus. Era o seu limite.

Antes das treze, já estava furioso. Impossível que os apartamentos em volta ninguém reagisse. Sentia-se impotente, indignado, profundamente triste. E com medo: da dor, da morte, do desamparo da justiça. Temia tocar a campainha e desmaiar de espectativa. Não tinha amigos, provas, nada. Se enviasse à polícia a mensagem antes da agressão, que faria com ele essa polícia que protege os seus? Se contasse a alguém, o estranho, quem acreditaria nele? Os intensos sentimentos tomando-o. Cada dia suportava os mais intensos sem adormecer.

Com os dias, venceu a longa sequência do estupro. Pelo celular ela tentava falar com uma amiga. Ele a flagrava e, ameçando-a, destruía o aparelho. Depois a algemava, no sofá,  apoiava o pé na sua cabeça se vangloriando em voz alta. Então ela encontrava a arma. E se ouviam três tiros. Neste instante ele desmaiava. Impossível saber o desfecho. Morria ele, ela, ambos? Me espere, dizia consigo. As traduções todas por fazer. Não tinha cabeça para aquilo. Como foi possível viver tanto tempo sem sentir?

De repente, quando tudo fazia sentido, o casal sumiu. Ligava o interfone para ninguém atender. Um dor insuportável se apossou dele. Dormia e despertava em ciclos de minutos. Sua mãe ligou de Londrina. Estava bem? Ele tentou simular a apatia, a frieza antiga, mas já não podia se conter: disse que a amava, e ao pai, queria conhecer os sobrinhos, sentia falta do irmão. Com alegria, viram-se na câmera, espantados todos de não o verem dormir. E prometeram se reencontrar em breve, o pai se recuperava agora em casa. Tudo daria certo. 


Estava no banho quando ouviu as vozes exaltadas. Então voltaram. Nao cabia em si de tão feliz. Aquela guerra conjugal o apaziguara. Terminava de calçar os sapatos quando ouviu o primeiro tiro,  já havia girado a chave quando soaram o segundo, o terceiro e fez silêncio. Então diante da porta, no corredor,  tocou freneticamente a campainha sem desmaiar. Quem abriu foi ele, ela estava logo atrás. Com toda a força que tinha desferiu-lhe um soco que o fez recuar. Ele estendeu a mão:  Vamos! E um tanto atônita, ela foi com ele. Entraram no elevador, ele premeu o térreo.  A luz fluorescente piscante tornava tudo menos real. 

Acho que quebrei minha mão ao bater no seu marido.

Ele não é o meu marido.  É um ator.


Quer dizer que vocês estavam encenando todo tempo?

Com transição ao vivo para cinco países. Você não sabia?

Não.

Ouviu os tiros? Ele podia ter te matado.

Eu sei, disse. E aquele engano era de repente, fascinante. E você sabe quem sobrevive no final?

Acho que nós dois, disse sorrindo. E apertou o botão de volta para o andar.